A região que inventou o inverno — e onde há mais vaga aberta na hotelaria suíça hoje
Em 1864, um hoteleiro de St. Moritz apostou que hóspedes britânicos gostariam dos Alpes no inverno. Ganhou a aposta e criou uma indústria. Cento e sessenta anos depois, os Grisões são a região com mais vagas abertas do país — e o calendário de contratação dela surpreende.
por Chef Rodolfo Ramires
Em setembro de 1864, o hoteleiro Johannes Badrutt, de St. Moritz, fez uma aposta com quatro hóspedes britânicos que passavam o verão ali: voltem no inverno, e se não gostarem, eu pago a viagem.
Eles vieram no Natal e ficaram até a Páscoa. Foram os primeiros turistas de inverno dos Alpes — e uma indústria inteira nasceu dessa aposta ganha.
O hotel que teve luz elétrica antes do resto da Suíça
Por volta de 1860, Badrutt transformara uma pensão no Hotel Kulm, o primeiro hotel de exigência elevada da montanha; até 1889 ele o levou a 290 quartos. Para dar o que fazer aos hóspedes no inverno, mandou construir pistas de gelo e de trenó e organizou torneios de curling.
No Kulm instalou a primeira iluminação elétrica da Suíça, além de telefone, sanitários internos, elevadores hidráulicos e aquecimento a ar quente.
Por que isso importa a quem procura emprego hoje: a temporada de inverno dos Grisões não é um acaso do clima — é um produto inventado ali e vendido há mais de 160 anos. Por isso a região tem casa grande, brigada grande e padrão internacional em povoados de poucos milhares de habitantes. E por isso o calendário de trabalho dela é o oposto do de uma cidade.
O trem que abriu o vale, e o túnel que salvou o inverno
A linha do Albula ficou pronta em 1903; a do Bernina, em 1910. Desde julho de 2008, o trecho Thusis–Tirano, de cerca de 122 km, é Patrimônio Mundial da UNESCO como "Ferrovia Rética na paisagem Albula/Bernina".
E em 19 de novembro de 1999 abriu o túnel do Vereina: 19.042 metros entre Klosters Selfranga e Sagliains, o mais longo túnel ferroviário de bitola métrica do mundo, criando a ligação à prova de inverno entre o Prättigau e a Engadina — com transporte de automóveis sobre vagão.
Para quem vai trabalhar ali sem carro, a leitura é direta: a Engadina continua alcançável no inverno. O transporte não é o obstáculo; o alojamento é.
O tamanho do mercado
2025 fechado: cerca de 5,68 milhões de pernoites em hotelaria e termas, +2,8% sobre o ano anterior — o melhor resultado desde 2010 e +8% sobre 2019. As chegadas bateram recorde: 2,21 milhões.
Temporada de inverno 2025/26: a hotelaria suíça marcou recorde histórico de 18,7 milhões de pernoites; nos Grisões o total ficou estável (+0,1%), mas a demanda estrangeira subiu 5,0%.
Mercado estável no total e crescendo em público estrangeiro é mercado que precisa de idioma: alemão como base, inglês pesando mais do que na média suíça, italiano com uso real nos vales do sul.
O dado que inverte o instinto de quem procura vaga
No turismo dos Grisões precisa-se de muito mais gente no inverno do que no verão. A consequência é medida: o desemprego na hotelaria da região chega a ser quase cinco vezes maior em novembro do que em fevereiro.
Parece contraintuitivo até você ler ao contrário: em novembro há multidão procurando — gente que acabou de encerrar a temporada de verão — e as casas já fecharam a brigada. Quem se apresenta em setembro e outubro conversa com casa que ainda está montando equipe.
No plano nacional, o setor abriu a temporada de 2026 com mais de 40 mil vagas em aberto, e a falta de pessoal levou casas a fechar dias e encurtar cardápio. (Esse número vem de publicação setorial, não de estatística oficial — vale como ordem de grandeza.)
O topo da praça, 160 anos depois
O Badrutt's Palace, em St. Moritz, foi eleito "Hotel des Jahres 2026" pelo guia Gault&Millau Suíça, com destaque para a operação gastronômica — em especial o La Coupole — Matsuhisa, do chef Nobu Matsuhisa.
É a mesma casa da família que inventou a temporada de inverno, na mesma praça, ainda no topo. Para uma carreira, uma temporada numa casa desse porte é referência que atravessa fronteira.
O que este levantamento não responde
Por honestidade, o que ficou em aberto: salário praticado (piso de hotelaria é matéria do L-GAV e só entra com fonte oficial e data da versão em vigor); alojamento casa a casa, que é a pergunta decisiva num povoado alpino; regras de permissão para trabalho sazonal, que dependem da nacionalidade e do tipo de contrato; e quantas casas da região oferecem contrato anual em vez de temporada — sabendo-se apenas que Chur, a capital, é a única praça de cidade, com vida o ano inteiro.
Fontes: pioniere.ch e NZZ ("Als die Schweiz den Winter erfand"); rhb.ch e graubuenden.ch; swissinfo.ch (Vereina); balanço turístico 2025 sobre dados BFS/HESTA; comunicado BFS/admin.ch sobre a temporada 2025/26; graubuenden-jobs.ch; gaultmillau.ch e 20min.ch; catálogo próprio da Arbeit Code — todas consultadas em 02/09/2026.